• Felipe Ruzene

O Corvo, de Edgar Allan Poe

Atualizado: Ago 27

"O Corvo" é um poema narrativo, um dos mais célebres do escritor norte-americano Edgar Allan Poe. Foi publicado originalmente em janeiro de 1845, e é famoso por sua musicalidade, linguagem estilizada e a atmosfera sobrenatural digna do mestre do horror. Um poema essencial àqueles que se aventuram nas macabras fantasias de Poe...



Resenha:


O poema apresenta a misteriosa e inusitada visita de um corvo a um homem (sem nome mencionado) em seu quarto. O rapaz constantemente lamenta a perda de sua amada, Lenora, e progressivamente enlouquece ante ao corvo que, sobre o busto de Palas Atena preso a porta, responde-lhe nada além de "Nunca mais". Os versos de Poe fazem referência a elementos folclóricos, mitológicos e religiosos. Em seu ensaio A Filosofia da Composição (1846), o autor afirmou ter escrito o poema de maneira lógica e metódica, com a intenção de criar uma obra que agradaria tanto à crítica quanto ao gosto popular. Poe queria com isso provar que o trabalho do poeta advém muito mais da transpiração e do trabalho, do que da mera inspiração criativa.


Convém ressaltar que os corvos, assim como outros pássaros, são capazes de imitar a voz humana. Então a personagem de Poe não é, em verdade, um corvo falante, mas um animal regular que com sua única fala meticulosamente trabalhada no poema gera certa atmosfera de sobrenaturalidade. "O Corvo" foi publicado com atribuição a Edgar Allan Poe pela primeira vez na edição de 29 de janeiro de 1845 do jornal New York Evening Mirror. Em pouco tempo, o texto foi republicado, parodiado, ilustrado, levando grandiosa notoriedade ao autor. Ainda hoje o Corvo de Poe é um clássico da literatura e um dos mais famosos poemas já escritos. A narração é em primeira pessoa, exposta pelo rapaz que rememora os acontecimentos de uma madrugada em que, quando quase adormecia, ouviu alguém lhe bater à porta. Entretanto ninguém havia do outro lado da entrada, adiante ele perbece que o som, na realidade, vem da janela. Quando ele vai até a ventana para investigar, um corvo voa para dentro de seu quarto e, sem prestar qualquer atenção ao homem, o pássaro pousa sobre um busto de Palas Atena que havia acima da porta. Assim, inicia-se um profundo refletir do eu lírico a respeito de sua vida e dos acontecimentos daquela madrugada junto ao seu novo amigo o corvo que, quando questionado, nada responde além de "Nunca mais" (Nevermore). Segundo o narrador, a expressão deve ter sido aprendida pela ave com um soturno erudito que lhe repetia exclusivamente isto.


A significação do texto ainda gera divergência entre os literatos, mas para Kenneth Silverman [1] (educador estadunidense especialista em Poe) o poema se refere à devoção eterna e à cruel dicotomia do eu-lírico em desejar, simultaneamente, esquecer completamente e recordar eternamente de sua falecida amada, Lenora. Esta dualidade pode ser observada, segundo Silverman, no fato do narrador saber que o corvo lhe responderia apenas "Nunca mais", entretanto, ainda sim, permanecia dialogando com ele. Neste sentido suas falas se tornam monólogos autodepreciativos, as quais são articuladas para combinar com a cismática resposta do negro pássaro, inerte sobre o busto de Palas. Todo este desenrolar tem como eixo central o sentimento de perda do eu-lírico e, mesmo sem a completa certeza, parece presumível que o corvo não possuía consciência de suas respostas, na realidade os diálogos é que foram combinados (pelo rapaz e, evidentemente, pelo próprio Poe) para acordar com o melancólico sentir do narrador e com o ambiente gótico do poema. Neste sentido o texto se aproxima da lírica clássica, sobretudo as Elegias de Amor, que consistem no lamento pela perda de um amante. Outra clara referência à antiguidade é o busto da deusa helênica Atena, sobre o qual o corvo repousa para dialogar com o rapaz. Ademais, é interessante notar que a estrutura de mutabilidade da personalidade do eu-lírico é bastante clara no poema; ele começa melancólico, ascende à inquietação e por fim encontra a insanidade - estágios de seu luto, impulsionados pela dor crescente.


O poema foi composto por dezoito estrofes de seis linhas cada e sua metrificação é de um octâmetro trocaico — oito pés trocaicos por linha, cada pé com uma sílaba tônica seguida por uma sílaba átona. "O Corvo" foi amplamente traduzido, em inúmeros idiomas ao redor do mundo. As primeiras traduções foram feitas para o francês, por Charles Baudelaire e Stéphane Mallarmé. A primeira tradução para a língua portuguesa foi feita pelo nosso mestre Machado de Assis [versão esta que aqui apresentamos], em 1883, baseada na versão francesa de Baudelaire. Outras versões em português que se destacam são as de Fernando Pessoa, (considerada uma adaptação moderna por visar a manutenção dos componentes rítmicos, tendo o mesmo número de versos e estrofes do poema original e por excluir ou modificar os nomes próprios) de 1924, e a de Milton Amado, famosa, inclusive, por ter sido revisitada pelos Simpsons no célebre episódio da Casa da Árvores dos Horrores (S02E03) [Clique aqui para assistir].


[1] SILVERMAN, Kenneth. Edgar A. Poe: Mournful and Never-ending Remembrance. Nova Iorque: Harper Perennial, 1991.


Poesia Completa:


O CORVO

Edgar Allan Poe (Tradução: Machado de Assis)


Em certo dia, á hora, á hora Da meia-noite que apavora, Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga, Ao pé de muita lauda antiga, De uma velha doutrina, agora morta, Ia pensando, quando ouvi á porta Do meu quarto um soar devagarinho, E disse estas palavras taes: «É alguem que me bate á porta de mansinho; «Ha de ser isso e nada mais.» Ah! bem me lembro! bem me lembro! Era no glacial Dezembro; Cada braza do lar sobre o chão reflectia A sua ultima agonia.

Eu, ancioso pelo sol, buscava Saccar d’aquelles livros que estudava Repouso (em vão!) á dôr esmagadora D’estas saudades immortaes Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora, E que ninguem chamará mais. E o rumor triste, vago, brando Das cortinas ia acordando Dentro em meu coração um rumor não sabido Nunca por elle padecido. Emfim, por applacal-o aqui no peito, Levantei-me de prompto, e: «Com effeito, (Disse) é visita amiga e retardada «Que bate a estas horas taes. «É visita que pede á minha porta entrada: «Ha de ser isso e nada mais.» Minh’alma então sentiu-se forte; Não mais vacillo e d’esta sorte Fallo: «Imploro de vós, — ou senhor ou senhora, «Me desculpeis tanta demora. «Mas como eu, precisado de descanço, «Já cochilava, e tão de manso e manso «Batestes, não fui logo, prestemente, «Certificar-me que ahi estaes.» Disse; a porta escancaro, acho a noite somente, Sómente a noite, e nada mais. Com longo olhar escruto a sombra, Que me amedronta, que me assombra,

E sonho o que nenhum mortal ha já sonhado, Mas o silencio amplo e calado, Calado fica; a quietação quieta; Só tu, palavra unica e dilecta, Lenora, tu, como um suspiro escasso, Da minha triste boca saes; E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço; Foi isso apenas, nada mais. Entro co’ a alma incendiada. Logo depois outra pancada Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella: «Seguramente, ha na janella «Alguma cousa que sussura. Abramo «Eia, fôra o temor, eia, vejamos «A explicação do caso mysterioso «D’essas duas pancadas taes. «Devolvamos a paz ao coração medroso, «Obra do vento e nada mais.» Abro a janella, e de repente, Vejo tumultuosamente Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias. Não despendeu em cortezias Um minuto, um instante. Tinha o aspecto De um lord ou de uma lady. E prompto e recto Movendo no ar as suas negras alas, Acima vôa dos portaes, Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas; Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura, Naquella rigida postura, Com o gesto severo, — o triste pensamento Sorriu-me alli por um momento, E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas «Vens, embora a cabeça nua tragas, «Sem topete, não és ave medrosa, «Dize as teus nomes senhoriaes; «Como te chamas tu na grande noite umbrosa?» E o corvo disse; «Nunca mais.» Vendo que o passaro entendia A pergunta que lhe eu fazia, Fico attonito, embora a resposta que dera Difficilmente lh’a entendera. Na verdade, jamais homem ha visto Cousa na terra semelhante a isto: Uma ave negra, friamente posta N’um busto, acima dos portaes, Ouvir uma pergunta e dizer em resposta Que este é seu nome: «Nunca mais.» No emtanto, o corvo solitario Não teve outro vocabulario, Como se essa palavra escassa que alli disse Toda a sua alma resumisse. Nenhuma outra proferiu, nenhuma, Não chegou a mexer uma só pluma, Até que eu murmurei: «Perdi outr’ora Tantos amigos tão leaes!

«Perdeirei tambem este em regressando a aurora.» E o corvo disse: «Nunca mais!» Estremeço. A resposta ouvida É tão exacta! é tão cabida! «Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia «Que elle trouxe da convivéncia «De algum mestre infeliz e acabrunhado «Que o implacavel destino ha castigado «Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga, «Que dos seus cantos usuaes «Só lhe ficou, na amarga e ultima cantiga, «Esse estribilho: «Nunca mais.» Segunda vez, nesse momento, Sorriu-me o triste pensamento; Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo; E mergulhando no velludo Da poltrona que eu mesmo alli trouxera Achar procuro a lugubre chimera, A alma, o sentido, o pavido segredo Daquellas syllabas fataes, Entender o que quiz dizer a ave do medo Grasnando a phrase: — Nunca mais. Assim posto, devaneando, Meditando, conjecturando, Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava, Sentia o olhar que me abrazava. Conjecturando fui, tranquillo, a gosto, Com a cabeça no macio encosto

Onde os raios da lampada cahiam Onde as tranças angelicaes De outra cabeça outr’ora alli se desparziam, E agora não se esparzem mais. Suppuz então que o ar, mais denso, Todo se enchia de um incenso, Obra de seraphins que, pelo chão roçando Do quarto, estavam meneando Um ligeiro thuribulo invisivel; E eu exclamei então: «Um Deus sensivel «Manda repouso á dor que te devora «D’estas saudades immortaes. «Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.» E o corvo disse: «Nunca mais.» «Propheta, ou o que quer que sejas! «Ave ou demonio que negrejas! «Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno «Onde reside o mal eterno, «Ou simplesmente naufrago escapado «Venhas do temporal que te ha lançado «N’esta casa onde o Horror, o Horror profundo «Tem os seus lares triumphaes, «Dize-me: existe acaso um balsamo no mundo?» E o corvo disse: «Nunca mais.» «Propheta, ou o que quer que sejas! «Ave ou demonio que negrejas! «Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende! «Por esse céu que alem se estende,

«Pelo Deus que ambos adoramos, falla, «Dize a esta alma se é dado inda escutal-a «No Eden celeste a virgem que ella chora «Nestes retiros sepulchraes, «Essa que ora nos ceus anjos chamam Lenora!» E o corvo disse: «Nunca mais.» «Ave ou demonio que negrejas! «Propheta, ou o que quer que sejas! «Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa! «Regressa ao temporal, regressa «Á tua noite, deixa-me commigo. «Vae-te, não fique no meu casto abrigo «Pluma que lembre essa mentira tua. «Tira-me ao peito essas fataes «Garras que abrindo vão a minha dor já crua.» E o corvo disse: «Nunca mais.» E o corvo ahi fica; eil-o trepado No branco marmore lavrado Da antiga Pallas; eil-o immutavel, ferrenho. Parece, ao ver-lhe o duro cenho, Um demonio sonhando. A luz cahida Do lampeão sobre a ave aborrecida No chão espraia a triste sombra; e fóra D’aquellas linhas funeraes Que fluctuam no chão, a minha alma que chora Não sai mais, nunca, nunca mais!




Referência: RUZENE, Felipe. O Corvo, de Edgar Allan Poe. Saca-Rolhas: Resenhas, Curitiba, ano 1, 24 ago. 2021.

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